Eu estava tremendo e dando a ultima arrumada no Box de numero dois, a nossa cortina ainda estava fechada, e a cada três ou quarto minutos, passava um dos chefes que estavam fiscalizando para olhar o que tínhamos na bancada e nos isopores, nada de ostras abertas, e coisas pré-preparadas ou já prontas. Eles também adoravam relembrar que tínhamos apenas mais dez, talvez cinco ou no melhor dos casos apenas um minuto para abrir as ‘cortinas’. A última coisa que eu lembro antes de vê-las abrindo foi o chefe do “Le Cordon Blue” aparecer ao lado dela e falar alguma coisa apontando para o fogão, provavelmente era algo como “acenda o fogão e cuidado para que ele não queime a cortina”. Avisei o Marcelus sobre ligar o fogão, ele era o Chef da bancada e eu como assistente não me via no direito de pilotar tal maquina, na divisão dos trabalhos que havíamos planejado dias antes eu apenas ficava atento aos pré-preparos, cortes, coisas para pegar, ou botar na geladeira, limpeza da bancada e o mais ‘divertido’ do prato os esféricos de geléia de Pimenta com Maçã. Naturalmente eu irei falar delas, mais cada coisa em seu tempo.
As cortinas se abriram, eu estava com a minha faca em cima da ‘tábua’, apenas corri peguei a ceboulete na geladeira, já estavam devidamente higienizadas, os bowls, e as bacias organizadas todas na minha frente, para dividir a sujeira, que era parte branca mais perto da raiz, depois dividia as folhas para ficarem em tamanhos uniforme, cerca de 5 cm, além de facilitar e muito o corte em chifonade fino. Apenas cortei o mais fino que eu consegui, isso me custou 1 /6 da minha unha do indicador da mão esquerda, amadorismo misturado com nervosismo. “No pain, no gain” pensei comigo mesmo, limpei a tábua, peguei aquela porção de ceboulete batizada e joguei fora. Lavei as mãos, e peguei um dedal de luva e botei no dedo indicador. A verdade é que eu só senti realmente a dor, e vi o sangue começar a escorrer no dia seguinte.
Enquanto eu ia me acalmando, Marcelus apenas abria as ostras com muita prática, cerca de quarenta.
Depois de finalizar os cortes, eu parti para a segunda etapa, Geléia de maçã com pimenta dedo-de-moça, descasquei as quatro maçãs, e fui colocando-as sem casca em um bowl com água e suco de limão para que elas não ficassem escuras, oxidadas na verdade, depois cortei-as em quatro limpei suas sementes e reservei no mesmo bowl.
Irei falar um pouco sobre as pimentas dedo-de-moça, a primeira vez que eu fui fazer a geléia eu abri nada mais nada menos que 12 delas, retirei as sementes e cortei em brunoise, eu até havia pensando na possibilidade de não cortá-las já que seu caráter físico é muito parecido com a do pimentão, e para fazer uma geléia isso não seria muito interessante. Depois acabei pesquisando e descobri que ambas são do gênero Capsicum e família Solanaceae (mais informações clique aqui) por isso a similaridade fibrosa, mesmo assim ela ficou na panela por cerca de uma hora, apenas a água secava e sua estrutura não desmanchava. Então tive a genial idéia de botar tudo em um mixer e fazer um ‘suco’, que seria reduzido à base de muito açúcar. Bom descascar todas as 12 pimentas, e cortá-las em brunoise não foi algo muito inteligente para se fazer, minhas mãos ficaram ardendo por mais de doze horas, tive de dormir com uma toalha encharcada enrolada nas mãos.
Escrito por Joaquim Dutra
Escrito por Joaquim Dutra
Escrito por Joaquim Dutra